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Poesia

A Lição da Caveira

Um príncipe, orgulhoso da sua realeza, foi certo dia caçar em lugar montanhoso e afastado.

A certa altura de seu caminho, viu um velho eremita, sentado diante de sua gruta, e muito atento a considerar uma caveira que tinha nas mãos. Indignado porque o velho não lhe deu a menor atenção, nem sequer levantando os olhos para a luzida companhia de caçadores, o príncipe aproximou-se dele, e disse-lhe, entre rude e zombeteiro: – Levanta-te quando por ti passa o teu senhor! Que podes ver de tão interessante nessa pobre caveira, que chegas a te abstrair da passagem de um príncipe e tantos poderosos fidalgos? O eremita erguendo para ele os olhos mansos, respondeu em voz singularmente clara e sonora. – Perdoa-me senhor. Eu estava procurando descobrir se esta caveira tinha pertencido a um mendigo ou a um príncipe, mas não consigo distinguir de quem seja. Nestes ossos nada há que me diga se a carne que os revestiu repousou em travesseiros de plumas ou nas pedras das estradas. Eu não saberia dizer se devia levantar-me ou conservar-me sentado diante daquele que em vida foi o dono deste crânio anônimo. O príncipe saiu de cabeça baixa, prosseguiu, mas a caçada não teve, naquele dia, qualquer encanto para ele.

 

O orgulho nos induz a julgar-nos mais do que somos; a não suportarmos uma comparação que nos possa rebaixar; a nos considerarmos tão acima dos nossos irmãos que o menor paralelo nos irrita e aborrece.

 

A lição da caveira feriu profundamente o seu orgulho

Mensagem Postada 10/3/2008.