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As vezes a fila não anda…

Fazia pelo menos trinta minutos que eu tinha visualizado a mensagem e não sabia o que fazer com ela. Quer dizer, eu sabia, porque na hora que o celular tocou e eu vi de quem era, meu corpo inteiro travou: e só depois que li foi que meus músculos voltaram a relaxar. E cada segundo depois desse momento era um segundo que eu desperdiçava tentando fazer a coisa certa. Foi por isso que antes de responder eu liguei para minha melhor amiga.

– Vá, se você precisa ir.

– Eu quero, mas a fila anda.

– A fila anda?

– Tá, a fila não anda nesse caso. Mas deveria.

 – Sim, deveria. Mas as vezes a fila não está preparada para lidar racionalmente.

– Ok, essa frase não fez o menor sentido.

O fato d’eu ter esquecido um comprovante de pagamento na casa do meu ex com certeza não era motivo para voltar lá. Ela sabia disso. Eu sabia disso. Mas eu realmente precisava do comprovante, ou teria que ir ao banco novamente. E tirando o fato que eu não me importava nenhum pouco com isso, a verdade é que eu me agarraria a qualquer possibilidade de voltar a casa dele. E o que ela me disse me fez tomar a minha decisão.

É claro que eu fui.

É claro que era errado.

Mas às vezes a gente não está preparada para lidar racionalmente.

A parte boa de quando você sabe que está fazendo algo errado é que você começa a prestar atenção em cada detalhe e foi por isso que percebi que ele já tinha más intenções quando senti o perfume antes mesmo dele abrir a porta. Ele sorriu e me deu um abraço apertado e durante aqueles vinte segundos esqueci completamente o motivo pelo qual estava ali, o motivo pelo qual a gente tinha terminado e o motivo pelo qual cada segundo após responder a mensagem dele tinha sido um erro.

É claro que o cara que passou o último mês do nosso relacionamento sendo babaca não estava preocupado com o fato de eu ter esquecido um comprovante na casa dele. É claro que era uma desculpa, é claro que ele só queria me ver, é claro que eu sabia disso e é claro que a gente dormiu juntos.

E quando acordei o que não estava claro para mim era o motivo de eu ter ido até lá. Eu sequer conseguia lembrar o motivo pelo qual eu tinha sofrido tanto por causa dele. Quer dizer, ele é legal, carinhoso, mas no fundo era só alguém que precisou usar um papel de desculpa porque não teve coragem de dizer que sentiu a minha falta.

Foi quando lembrei da conversa com a minha amiga que percebi que as vezes a gente não está preparada para lidar racionalmente com uma situação. Agora eu estava. Aproveitei que ele estava dormindo para sair escondida, feliz por finalmente ter colocado um fim em um relacionamento na minha vida.

A fila não andava fazia 10 minutos e eu não entendia o porquê. Olhava para o caixa e ele não chamava ninguém e também não atendia. Parecia ocupado. O que pode mantê-lo tão ocupado enquanto tem uma fila de 12 pessoas para atender? Senti vontade de tirar meu sapato e agredi-lo. Sim, agredi-lo, porque saí tão rápido do apto do meu ex que esquecera o mais importante, o motivo pelo qual eu tinha ido lá. Mas agora é tarde e eu estava no banco decidindo que parte do meu sapato eu usaria para torturar o caixa até a morte. Quando ele finalmente me chamou, teve a audácia de sorrir e eu me esforcei ao máximo para não corresponder.

Fracassei. Às vezes o sorriso das outras pessoas são como ímãs e quando você menos espera você sorri de volta. Péssimo hábito. Imprimiu um novo comprovante, pediu desculpas pela lentidão e me desejou um bom dia. Sorri e desejei o mesmo. De verdade.

Agora que o problema tinha se resolvido, a fila voltava a andar. A fila tinha marcado uma balada com sua amiga e estava feliz novamente.

 

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Escrito por Mabê – Via Entre Todas as Coisas