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Diálogo com o tempo

O musical ‘Sunset Boulevard’, que está sendo apresentado em São Paulo, SP, baseado no célebre filme homônimo, é uma das mais cruéis reflexões sobre o tempo que podem ser realizadas em forma de arte. Primeiro, por começar com um narrador morto; e segundo, por mostrar como o não saber lidar com o envelhecimento e com o passar dos anos enlouquece.

Perder a razão, nesse contexto, significa viver num castelo de ilusões, enclausurado, fingindo, ou simplesmente não percebendo de fato, que a vida passa e leva com ela muito de nós. E deixa marcas; nem todas agradáveis. A questão está em saber lidar com elas, um desafio nada fácil.

A história da decadente e envelhecida estrela do cinema mudo que planeja um retorno, e se apoia num roteirista desempregado por quem se apaixona, ilustra o desespero de quem pouco ou nada consegue fazer perante o poço que vai cavando para si mesmo. Nem mesmo a arte pode salvar quem tira os dois pés da chamada realidade.

O musical comove por apontar justamente que, no diálogo entre o velho e o novo, se não houver sabedoria de ambos, o mais antigo pode simplesmente despencar numa maratona de dor, sofrimento e lágrimas. Manter um pé em cada tábua, nesse momento existencial. pode ser um passo para evitar o naufrágio do caminhante.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.