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Nossos sonhos

Tudo passou depressa demais. Até outro dia éramos crianças correndo pelos quintais. Até outro dia ainda existiam quintais para se correr. Tínhamos tempo para sonhar. Vivíamos sem pressa de viver. Vivíamos sem medo de morrer. Hoje a areia parece descer da ampulheta com muito mais força. Vai descendo e levando o que restou da nossa juventude. Vai escoando o nosso tempo neste mundo. Vai transformando nossos sorrisos em fotos arquivadas por computadores portáteis. Muita foto, pouca moldura. Muita saudade, poucas certezas. Até mesmo o rapaz que costumava cantar que tínhamos “todo o tempo do mundo” se foi ainda jovem. O futuro de que tanto falávamos já chegou. E o garotinho que sonhava com um skate voador agora vive engravatado, amordaçado e preso por uma escrivaninha entre quatro paredes. A menina desaprendeu a pular corda. E agora já não sorri mais como antes. Já não dança como antes. Já não ama como antes. Já não é mais a mesma. Sonhos que ficaram pelo caminho. Nossos diplomas dizem muito pouco sobre nós. Sobre o que somos. Sobre a nossa verdade. Mas quem somos, afinal? Surfistas de terno e sapato. Dançarinas de salto alto. Atletas de videogame. Cantores de chuveiro. Atores sem palco. Modelos sem passarela. Sonhadores com insônia. Batedores de ponto. Profissionais frustrados. Não era isso o que a gente respondia quando um adulto perguntava o que queríamos ser quando crescer. Será que sonhamos alto demais ou nos faltou força para conseguir? Hoje acordei meio nostálgico. Um turbilhão de lembranças da criança que não queria crescer. E por falar em sonhos, eu devia mesmo ter fugido para Terra do Nunca quando tive a chance. Mas a culpa não foi minha, foi do Peter Pan. Planejei tantas vezes. Deixei a janela do quarto aberta. Fiquei esperando a sombra dele aparecer, mas ele nunca veio me buscar. Vai ver ele envelheceu também. Casou-se com a Wendy, tiveram filhos, arrumou um emprego como caixa de supermercado e agora dividem um apartamento de 2 quartos no subúrbio de Londres. Quem sabe? Pode ser. O que eu sei é que ele nunca apareceu e eu fiquei por aqui mesmo. Acabei crescendo sem aprender a voar. E agora só me resta ser pirata. Talvez o capitão Gancho me aceite em seu navio. Mas vai ter que ser depois das 18h. Não posso correr o risco de ter o ponto cortado no escritório.


24 de agosto de 2015

Rafael Magalhães