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Poesia

O bem do desapego

Entre um objeto de grande valor (material ou sentimental) e uma verdadeira amizade não existe comparação. Objetos, por mais que nos sejam caros e que pareçam insubstituíveis, são objetos. Os sentimentos que despertamos e que despertam em nós, esses sim, são de maior importância. Conheço pessoas capazes de ficarem tristes o dia inteiro por um objeto quebrado por uma outra pessoa, sem se importar se os sentimentos da mesma estão quebrados ou inteiros. Portanto, é mais fácil recolar um objeto que restaurar um coração magoado.

Não sei se por que tenho alma de poeta ou por uma outra razão, sou meio desligada de tudo. Gosto, como a maioria das mulheres, de coisas boas e bonitas e aprecio as atenções que têm para comigo. Mas um arranhão no meu carro me deixa menos triste que o olhar triste de uma das minhas filhas ou mesmo de uma outra pessoa. Aprendi (e estou ainda nesse árduo caminho) a cultivar o desapego das coisas materiais e dos sentimentos negativos no meu coração. Isso não quer dizer que eu não dê valor às coisas que possuo, mas que considero que há coisas muito superiores ao que vou deixar aqui no dia que tiver que partir para sempre. Não quero carregar indefinidamente minhas tristezas e feridas interiores, pois se servirão a alguma coisa, será para que eu abra menos os olhos às belezas do mundo.

 

Quero carregar em mim meus momentos de carinho. Decidi que o passado que me fez mal foi uma etapa a qual venci e que ficou para trás. Quero que minhas filhas no futuro lembrem-se sempre das nossas cantigas e risadas, nunca das minhas zangas. Prefiro deixar como herança boas lembranças de tudo o que vivemos juntas e o ensinamento de que a vida nós construímos segundo o que está dentro do nosso coração. Tenho plena convicção que é isso o que Deus quer de nós.

 

Aqui vai meu carinho no dia de hoje:

 

O bem do desapego

 

É quando nos preparamos para mudar que percebemos a quantidade de coisas que guardamos sem necessidade. Nem sabemos por que o fazemos, mas temos medo de um dia precisar disso ou daquilo e vamos acumulando nossas preciosidades, se assim podemos dizer.

 

Grande armário é o nosso coração e a nossa alma! Imagino que se um dia tivéssemos que “mudar” esse pedacinho de nós, encontraríamos nele muitas coisas desnecessárias das quais tivemos dificuldade para nos desvencilhar.

 

Como nos nossos armários há roupas que nem nos cabem mais, nas gavetas objetos inúteis, há nesse nosso coração certamente sentimentos que há muito deixaram de nos servir, mas que continuam intactos, como se o tempo para eles não tivesse passado.

 

As águas correm nos rios, mas não no nosso interior. Elas levam o que encontram pela frente, mas nós nos apegamos ao inútil e nos impedimos assim de desembocar no grande mar da vida que nos oferece novos horizontes.

 

Se um dia decidirmos mudar de casa e nos oferecermos uma nova vida, não precisamos deixar tudo e nem carregar tudo. Um coração sábio saberá escolher o que deve ser aproveitado ou não. Os carinhos que recebemos permanecerão intactos, mesmo se as flores se secaram e as cartas se perderam.

 

Antigas e amareladas mágoas nunca têm utilidade, a não ser para envelhecer e entristecer nossa alma. Coisas que começamos e nunca terminamos ou continuamos, ou desistimos. Não é vergonhoso deixar coisas para trás, pesado mesmo e seguir em frente carregando essas mesmas coisas que nem sabemos onde vamos colocar.

 

Valioso demais é nosso coração para que seja maltratado, para que seja a ele negada a chance de se oferecer novas oportunidades e novos ares.

 

Cultivar no seu jardim a flor do desapego não significa amar menos ou deixar de apreciar o que de bom a vida nos oferece. Apenas mudar nosso olhar em relação ao mundo e se dizer que as coisas realmente bonitas e importantes ficam gravadas para sempre nas paredes da nossa alma, seja qual for nosso caminho.

 

Que o Senhor os conserve sábios e que portas e janelas se abram à frente de cada um mostrando as imensas possibilidades que temos para alcançar a felicidade! E não se esqueçam da grande verdade de que, mesmo se Deus nos oferece esse vasto jardim, cabe a nós esticar os braços para colher as flores.

 

Um abraço especialmente carinhoso,

 

 Letícia Thompson

Mensagem Postada 20/8/2011