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Poesia

Se o amor pudesse gritar

Superar é ultrapassar os limites de alguma coisa. Vimos recentemente, maravilhados e cheios de razão de sê-lo, um vídeo que mostra um rapaz cheio de deficiências físicas, mas com um coração inteiro e nos sentimos pequenos diante de tal vontade de ir além dos próprios limites. Nos olhamos no espelho e nos sentimos abençoados por sermos “normais” e ao mesmo tempo culpados pelas nossas limitações, sem tirarmos proveito de toda essa dádiva que Deus nos ofertou. Mas olhamos pouco… vemos a superfície, o reflexo daquilo que queremos ver. Fôssemos mais além… perceberíamos as deficiências da nossa alma, do nosso coração, do quanto limitamos nossos sentimentos, do quanto alimentamos nossos ressentimentos e nos nutrimos disso.

 

Superação não é somente vencer os limites físicos, ir além deles e continuar vivendo a vida de forma normal. Superação é também ver os defeitos da alma, nossa pequenez e ultrapassarmos esses limites para construirmos um mundo positivo à nossa volta. Enquanto nos sentirmos “normais” por termos pernas e braços, não perceberemos o quanto anormal é não fazer uso desses braços para abraçar, das mãos para ajudar, das pernas para ajudar a caminhar e dos ombros para dividirmos com alguém o peso da cruz. Ser deficiente é não saber perdoar, é não saber colocar o orgulho pra trás e dar o braço a torcer, é preferir ficar sozinho e triste a acolher quem carece de nossa compreensão e tolerância.

 

Superar-se é construir a vida “apesar de…” apesar da falta de um braço, de uma perna ou um pedaço da alma… é ser grande, mesmo sendo de estatura pequena, é continuar acreditando que o melhor de nós não depende dos outros, nem de fatores exteriores, mas do nosso eu que pode ir muito, muito além das nossas limitações.

 

Escrevi há alguns anos um texto para o dia das mães chamado “recolando pedaços” e esse ano sinto ainda vontade de falar sobre isso, mas utilizei uma outra forma. Se pudéssemos juntar os pedacinhos de tudo o que não vai bem conosco e construíssemos algo novo, o sol nasceria mais vezes, pelo menos dentro do nosso coração. Disso tenho certeza.

 

Aqui vai, para nossa reflexão:

Não sei dizer se é a falta do tempo, ou não querer perdê-lo, que nos leva a buscar coisas prontas ou pelo menos que nos dêem o menos trabalho possível. É como se quiséssemos cortar caminho para chegar ao mesmo ponto que o coração visa.

 

No nosso relacionamento com outras pessoas temos também uma certa tendência a, ao invés de construir relações, querer encontrar coisas feitas, situações prontas e que nos dêem segurança. Construir significa ter trabalho, empenhar-se, dar de si e, por que não, ceder e perder-se um pouco na busca de um encontro profundo.

 

Nos lamentamos pelo que não foi construído para nós e nos esquecemos do nosso poder de reparar, recuperar e reconstruir. Se temos um sonho, por que esperar que outros ponham as escadas no caminho para que subamos às nuvens? Colocando, nós, cada degrau, saberemos onde estaremos pisando.

 

Aquilo que exige de nós tempo e esforço merecerá uma alegria muito maior no dia da conquista.

 

Uma das histórias reais e mais bonitas que conheço é essa dessa filha que foi abandonada pela mãe quando criança. Ela cresceu com o sonho de ter uma mãe e já na idade adulta procurou pela mesma, colocando de lado todos os porquês de tanto abandono, de tantos anos de dor e solidão. Ela “decidiu” ter a mãe e tem. Cuida dela como se fosse a flor mais linda e preciosa do mundo, por que ela conhece o que é desejar e não ter e escolheu não viver a vida lamentando-se pelo tempo perdido. Constrói álbuns à partir do tempo que recuperou, vai acumulando lembranças para o dia do amanhã e saudade sincera para o possível dia da partida. Penso que abençoada é essa mãe e preciosa é essa filha. Precioso é esse ser humano.

 

Nossas razões nos colocam limitações. Os erros alheios nos parecem imperdoáveis e punidos somos nós pela rejeição da construção de uma vida diferente e nova, os quais seríamos o arquiteto, pedreiro e feliz proprietário.

 

Quando deixamos de falar com uma pessoa porque nosso coração ficou ferido, vamos colocando a felicidade num passo a frente e aquele momento de zanga fica perdido. Se tínhamos dez oportunidades de sermos felizes, teremos apenas nove porque nosso coração foi orgulhoso demais e isso falou mais alto.

 

Toda felicidade não é utopia. Utopia é pensar que permanecendo na nossa dureza e guardando nossas razões estaremos ganhando alguma coisa. Sonhos não são quimeras, são desejos que nosso coração pode realizar.

 

Se o amor pudesse sempre gritar, se ele pudesse segurar nosso rosto para a direção do sol e das flores, seríamos mais felizes, menos sérios, menos graves, mais leves, mais próximos do céu.

 

Pessoas perfeitas não existem. Pessoas que querem dar o melhor de si já são, para Deus, um pedaço do sonho da perfeição. Podemos todos ser o sonho de Deus.

Letícia Thompson

Mensagem Postada 22/1/2011