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Viver somente, não basta.

Todos temos sonhos, projetos, expectativas e perspectivas que, em vários momentos de nossas vidas não podemos realizar – temporariamente – por uma gama infinita de razões. No entanto, os sonhos, os projetos, as expectativas, as perspectivas e o desejo – também o querer – continuam lá e a vontade não murchou como uma velha bola esquecida, apenas espera condições em que poderá ser realmente colocada em campo novamente. Mas diferente disto é não realizarmos nossos sonhos e projetos, não buscarmos mudar algo que nos desagrada, não alterarmos a ordem ou virarmos a mesa, se necessário for, por questões de comodismo, covardia ou medo de sair da zona de conforto na qual estamos e vivemos. A vida é mutável. A vida é pulsante. Há momentos na vida – principalmente se não estamos satisfeitos com o que está a nos acontecer em um ou em diversos âmbitos de nossas vidas – em que precisamos ter coragem, ousadia e até loucura que seja, para mudarmos, para trocarmos de rota de for preciso ou para darmos uma reviravolta. Não dá para maquiarmos a vida para todo o sempre. Depois que as luzes se apagam no “teatro”, a vida continua lá fora, com todos os atos, trocas de figurino, monólogos, diálogos, loucuras, medos, sonhos, aspirações, decisões a tomar, novos sonhos a sonhar, novas perspectivas que estão sempre mudando e é preciso que nos reinventemos sempre para enfrentarmos com coragem os imprevistos e mudar de caminho se for preciso com a mesma beleza, com a mesma graça, com a mesma garra, com a mesma ética, com a mesma dignidade de antes – para quem os possui, naturalmente.

Mas infelizmente a maioria das pessoas querem garantias externas, precisam se aconchegar – mais do que se apegar, mas aconchegar mesmo – à utopia de qualquer forma de segurança, mesmo se esta for um aprisionamento do ser em lugares, situações, coisas e pessoas que não lhe fazem bem e podem até mesmo serem nocivas – como se a vida fosse linear e como se a segurança fosse a garantia de que tudo pode ser como um belo retrato da família feliz na sala de estar. Só que retrato não tem vida, os sorrisos nele são apenas pose e ele fica amarelado com o tempo, assim como essas pessoas que precisam viver na ilusão das garantias caquéticas e da segurança capenga. Até que a vida mostra-se como um sopro e todas as ilusões despencam e caem por terra, muitas vezes sem dar condições nem oferecer opções para essas pessoas saírem de lá – da terra, do chão.

Essas pessoas vivem de coisas e questões externas exatamente porque, para olhar para dentro vai ser preciso muita coragem para ver o que não está bem e fazer as devidas mudanças. Por isso tantas pessoas vivem a mudar quase compulsivamente o exterior. Não que mudar externamente seja um mal em si. Retirando o teor compulsivo, obviamente – e aqui não cabe e vou adentrar-me na conceituação psicanalítica do termo, levando em consideração somente a gramatical, para não estender-me em algo que não é a espinha dorsal do tema em questão – mudança – desde que não seja somente externa – é natural, normal e saudável – em suas conceituações de vida do dia a dia mesmo. Mas o fato recai sobre quem muda o que está externo – muitas vezes de forma exagerada e até compulsiva para não precisar olhar para dentro e mudar o pão bolorento. Ah sim, em maior ou menor grau, todos temos um pouco – ou muito – do pão bolorento dentro de nós. A diferença está entre ter coragem para retirar o bolor ou não e entre ficar se apresentando como a bela viola sem retirar esse bolor de dentro ou não. Essas pessoas que vivem das coisas e questões de fora, vivem a mudar de casa ou fazer reformas na que residem, a mudar os móveis e a decoração constantemente, quase de forma automática, a mudar o carro, a mudar de parceiros freneticamente – possuindo frequentemente também casos extraconjugais – a mudar o cabelo como quem troca de roupa, a mudar o físico com procedimentos estéticos, intervenções cirúrgicas ou até mesmo com anabolizantes, por não darem conta exatamente de mudarem o interior ou, muitas vezes porque o interior está tão degradado, tão feio, tão sujo que o trabalho para a limpeza e mudança seria de proporções estratosféricas e nem todos estão dispostos ou preparados para tal tarefa. Ou porque o interior está vazio e tristemente não há o que mudar, o que renovar. Como mexer em algo que não existe?

Então, as fugas ou as únicas saídas são ficar rodopiando em torno de si mesmo(a) como “João Bobo” e mudar as questões externas, muitas vezes de forma quase ininterrupta. Daí que as mudanças externas trazem a ilusão de transformação – ilusão apenas – pois a real transformação está dentro, é feita por dentro primeiro e é preciso força, coragem, honradez, ética e muita honestidade consigo para realizar um empreendimento tão grandioso – e lembremos que, quem não consegue ter honestidade nem consigo mesmo, fatalmente não conseguirá ter com nenhum outro, embora se consiga fingir e enganar o mundo e a si mesmo(a) por um determinado tempo, que é uma das piores coisas que um ser humano pode fazer a si. Impossível aqui não lembrar da Banda Legião Urbana, sucesso na década de 80, tendo como vocalista Renato Russo que era também compositor, em sua música “Quase sem querer”(1986) – “Como um anjo caído/ Fiz questão de esquecer/ Que mentir pra si mesmo/ É sempre a pior mentira”

Na vida não temos garantias nem segurança. Como nos lembra muito bem Chico Buarque, a vida é uma “roda viva”. A roda gigante da vida gira, rodam os peões, o tempo roda num instante, giram os moinhos de vento e os ventos mudam de direção a todo momento. O que temos é um amontoado de expectativas, anseios, desejos, sonhos, idealizações(boas e ruins), alegrias e tristezas, erros e acertos, conceitos capengas, feridas emocionais, carências, imperfeições, algumas cicatrizes mal e outras totalmente bem curadas, ambivalências e lutas – externas e, principalmente internas. E, quem se dispõe a mais do que viver somente e simplesmente, deve – ou deveria – saber que a compra é feita do pacote completo. É claro que há pessoas que nunca farão nada – por falta de coragem e outras tantas questões pessoais e não pessoais – e também há aquelas que farão de tudo e não necessariamente será bom – para o bem e para o mal. Mas, uma coisa é fato: sempre há o que pode ser feito, sempre há alternativas para mudarmos o que não está de acordo com o que queremos e não combina mais conosco, como aquela roupa que compramos no que hoje se chama “fast fashion” apenas porque era uma modinha passageira e depois nunca mais usamos, porque não combina mais com nada, não combina com quem escolhemos ser pelas nossas transformações. Mudar é difícil e pode ser para muitos complicado, para outros um pouco mais tranquilo, mas para todos, necessário. A vida está em constantes mudanças, a natureza muda sempre, o que vivemos – e o que não vivemos – muda todos os dias. A vida é nova todos os dias.

O caminho que cada um escolhe implica vários fatores, é pessoal e intransferível, mas mudar é e sempre será preciso, principalmente por dentro, de dentro para fora. Sempre há escolhas e atitudes para tomarmos e elas definirão quem somos. Não, não há garantias e nem segurança, mas há sempre possibilidades. Possibilidades de vivências, experiências, aprendizados, crescimento e mudanças, se realmente quisermos fazê-las. Transformar essas possibilidades em potenciais realizações é uma outra questão, que está também ligada ao “quanto” desejamos realmente investir em nós mesmos, nos outros, nas coisas que nos cercam – que nunca são somente coisas – e, principalmente, se queremos mesmo aquilo que desejamos. Mas há um fato imutável, ou seja, mudar é a única questão permanente na vida. A vida é mais, bem mais e muito mais além. E viver somente, não basta.
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Fonte: Obvious